sexta-feira, 17 de agosto de 2012

sobre o moço da comanda




João trabalha em um café na Frei Caneca. É loiro, branco, incrivelmente charmoso e é responsável pelos sucos de laranja. João é, também, o mais próximo de "loiro dos olhos claros fazendo meu café da manhã" que eu já cheguei. Ele costuma sorrir o tempo todo enquanto passa uma das mãos nos cabelos bonitos e com a outra espreme laranjas. João me dava duas comandas todos os dias e em uma delas me escrevia um recadinho. Muitas vezes elogiava minha roupa ou meu humor, às vezes falava do clima ou fazia desenhinhos. João era um corrupto, me induzia a sair correndo sem pagar a conta, me dava chocolates de brinde e dimunuia os números da minha dívida, mas fazia sucos laranja sem água e isso merece um post. João me dá o adeus mais apaixonante que existe e me diz todos os dias: você volta amanhã?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

sobre o moço do spam

Eu apelidei o moço de Sr. Lixo Eletrônico. Mandava-me elogios por mensagem privada, mas os recadinhos não chegavam a passar pela Inbox e iam direto para o lixo eletrônico. Depois que descobri os tantos chamegos perdidos e desprezados, passei a observar sempre o lixo eletrônico antes de qualquer coisa nessa vida virtual e lhes dou a seguinte dica: é no lixo que moram as surpresas. Vasculhem os seus. De preferência agora! Tive dias de alegria com o meu completo desconhecido que, nunca chegou a ter um lugar digno na minha caixa de mensagens. Mas do lixo veio e no lixo ficou: O bendito sumiu logo quando eu me interessei e passei a publicar indiretinhas no mural do Facebook.


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sobre o cutucador

Tinha cara de bonito. Me cutucava no Facebook há pelo menos 2 meses e eu cutucava de volta só para atender o mimo. Tínhamos alguns amigos em comuns, estávamos na comunidade oficial dos Beatles, clicamos em “participar” no evento para o show do Los Hermanos. Ele era solteiro. Um dia enviei uma mensagem privada para o meu, até então, pretendente dizendo: "Olá Sr. Cutucada" e no outro dia ele apareceu "em um relacionamento sério", mas, não era comigo.

sobre o cara que eu jurava que era casado


Tinha dentes lineares, voz mansa, não era tão alto e aparentava uns 32. Sentado junto à parede, permanecia isolado durante todas as aulas. Não questionava os professores, não respondia “presente” na hora da chamada e nem sequer se preocupava em fazer ou não parte de um grupinho. Usava um anel que afastava as mocinhas namoradeiras e tinha poucos cabelos que se espalhavam espontaneamente beirando a calvície. Era branco, tinha os olhos escuros e estava ligado em tudo o que há de moderno no mundo. A tecnologia parecia lhe impressionar e eu, sem que ele soubesse, costumava lhe roubar o sinal do Wi-Fi durante as aulas. E esse era o resumo da felicidade: "Galaxy Tab_7150 está disponível". E eu já ficava feliz... Era ele, o meu completo indisponível completamente disponível, de alguma forma, pra mim. Um dia a coragem tapeou meus dois lados do rosto e me empurrou pra praticar o pecado. Era um dia bem propício, fazia calor, estávamos sem aula e ele afrouxava a gravata enquanto eu, indiscretamente, lhe fazia perguntas pessoais. “Moro um pouco mais longe”, dizia ele. Depois começou a me falar sobre teologia e filosofia e alguns princípios básicos da comunicação. Eu só pensava em como descobrir se ele era casado e se toparia um café. Engraçado porque não fazia meu tipo e eu estava completamente encantada com o jeito que os seus dentes se encaixavam à medida em que as palavras eram pronunciadas. Escolhi a pergunta que ia preceder a descoberta da noite e questionei “você trabalha com o que?”. Ele me olhou bem nos olhos e pensou por alguns instantes. Me assustei com a demora e com o jeito que ele me olhava. Rondei, mentalmente, todas as profissões bizarras do mundo e fui atropelada pela voz de veludo que me dizia “Padre”. “Oi?” ”Eu sou padre”. Completamente imóvel e perdida, desde então, eu passei a ver hóstias sagradas pela sala de aula: hóstia no lixo, hóstia na lousa, hóstia na pqp. O meu suposto homem-proibido-casado era, na verdade, padre há oito anos e deixou bem claro que da vida dele só participava quem o enxergava como padre. Então pai, afasta de mim esse cálice!

sobre o engenheiro que só queria jogar bilhar


Flávio, engenheiro, meio bobo, perfumado, queria jogar bilhar. Andava de lá pra cá, enviava mensagens de texto aos amigos e convidava todo mundo pra jogar bilhar. Flávio queria um guarda chuva pra pisar na água sem se molhar e usava meu joelho pra apoiar os braços peludos escondidos no casaco branco. Eu tentei explicar que homens estranhos são, aos meus olhos, os mais atraentes. Flávio me olhava, enquanto eu olhava pro chão, e perguntava se era estranho. De mim Flávio só ouviria sim. Pro resto da vida sim. Por mil vezes sim. Sim, sim, sim. Flávio desdenhava jornalistas e queria saber se havia algum defeito em seu rosto que o tornava belo. Sim, sim, sim. Flávio, agora imóvel, queria ser chamado de Vitor. Tinha cara de Vitor, era pra ser Vitor, tinha tudo pra ser Vitor. Mas era Flávio. Lindo, estranho, engenheiro, meio bobo, perfumado e queria mais que tudo nessa vida jogar bilhar.