Tinha dentes lineares, voz mansa, não era tão alto e
aparentava uns 32. Sentado junto à parede, permanecia isolado durante todas
as aulas. Não questionava os professores, não respondia “presente” na hora da
chamada e nem sequer se preocupava em fazer ou não parte de um grupinho. Usava
um anel que afastava as mocinhas namoradeiras e tinha poucos cabelos que se espalhavam espontaneamente beirando a calvície. Era
branco, tinha os olhos escuros e estava ligado em tudo o que há de moderno no
mundo. A tecnologia parecia lhe impressionar e eu, sem que ele soubesse,
costumava lhe roubar o sinal do Wi-Fi durante as aulas. E esse era o resumo da felicidade: "Galaxy Tab_7150 está disponível". E eu já ficava feliz... Era ele, o meu completo indisponível completamente disponível, de alguma forma, pra mim. Um dia a coragem tapeou
meus dois lados do rosto e me empurrou pra praticar o pecado. Era um dia bem
propício, fazia calor, estávamos sem aula e ele afrouxava a gravata enquanto
eu, indiscretamente, lhe fazia perguntas pessoais. “Moro um pouco mais longe”,
dizia ele. Depois começou a me falar sobre teologia e filosofia e alguns
princípios básicos da comunicação. Eu só pensava em como descobrir se ele era casado e se toparia
um café. Engraçado porque não fazia meu tipo e eu estava completamente
encantada com o jeito que os seus dentes se encaixavam à medida em que as
palavras eram pronunciadas. Escolhi a pergunta que ia preceder a descoberta da
noite e questionei “você trabalha com o que?”. Ele me olhou bem nos olhos e pensou por alguns
instantes. Me assustei com a demora e com o jeito que ele me olhava. Rondei,
mentalmente, todas as profissões bizarras do mundo e fui atropelada pela voz de
veludo que me dizia “Padre”. “Oi?” ”Eu sou padre”. Completamente imóvel e
perdida, desde então, eu passei a ver hóstias sagradas pela sala de aula: hóstia no lixo, hóstia na lousa, hóstia na pqp. O
meu suposto homem-proibido-casado era, na verdade, padre há oito anos e deixou
bem claro que da vida dele só participava quem o enxergava como padre. Então pai, afasta de mim esse cálice!

Nenhum comentário:
Postar um comentário